2005/06/01

Garganta funda

Bob Woodward e Carl Bernstein, os jornalistas do Washigton Post que levaram à queda de Nixon recusaram-se sempre a revelar quem era a sua fonte no caso Watergate. O famoso garganta funda permaneceu um mistério. E foi ele próprio quem se revelou. Os jornalistas mantiveram o segredo da fonte meritoriamente. São um bom exemplo para os novos profissionais.

6 comentários:

AA disse...

Foi um caso claro onde a divulgação da fonte não serviria o interesse nacional...

...o mesmo não se aplica aos casos de violação pontual ou sistemática ao segredo de justiça, com perigo de obstrução dos processos e dano ao bem comum...

BSR disse...

Discordo em absoluto. Resolver o problema da violação do segredo de justiça mutilando o código deontológico do jornalista quanto à protecção das fontes é resolver um problema sem tratar as causas. Obrigar os jornalistas a revelar as fontes é assobiar para o lado.

Quem define o que é servir ou não o bem nacional? É uma ideia perigosa...

AA disse...

Há casos em que o primeiro interesse de informação é o da Justiça e só depois, o do público...

O debate tem andado um pouco viciado porque em rigor, cá em Portugal não se respeita o segredo de justiça. Lá por fora, os jornalistas e jornais são de facto punidos se interferirem com julgamentos ou investigações. E isso não é posto em causa.

É sim preocupante quando se define claramente qual é a linha que separa jornalismo de obstrução (não é o nosso caso), e uns e outros atravessam a dita linha -- sejam os jornalistas a levar a divulgação longe de mais, sejam os agentes de justiça a perseguir jornalistas...

BSR disse...

Mas os jornalistas têm um código deontológico que devem cumprir. Os médicos, advogados, etc também o têm.
As relações dos jornalistas com a justiça não pode passar pela revelação das fontes. As fontes são a matéria com que o jornalista exerce a sua profissão e este, pelo código deontológico deve-lhes segredo.
Mais importante que punir o jornalista é encontrar a fonte e puni-la sem que nisso o jornalista tenha intervenção directa. A justiça é que deve ser mais lesta a investigar-se.
O segredo da fonte é a premissa mais importante para um jornalista. É como o sigilo profissional. E isto tem que passar por cima da Justiça e do público. É a profissão de jornalista que está em causa.

AA disse...

Estamos a discutir o sexo dos anjos, também por minha culpa.

Não chamemos ao caso a quebra do segredo de justiça - que nem foi o caso Watergate (tratava-se de uma instrumentalização política de meios de investigação federal...)

(mas mesmo aqui, a lei tão confusa como é, é clara: quem souber de qualquer informação sob segredo de justiça está proibido de a divulgar)

Ninguém quer que os jornalistas quebrem a protecção das fontes. Mais de que uma prorrogativa do jornalista, é um dever cívico. O reserva das fontes implica o dever de cumprir a deontologia até ao fim.

Ou seja: não se confunda causa com consequência. O acto de divulgação de uma notícia não é automático, e obriga a uma ponderação deontológica.

Se pelo acto de eu informar, estou a blindar-me do dever de colaborar com a justiça, como qualquer cidadão, estou a colocar-me acima da lei. Tenho obrigação de não o fazer.

Penso que no essencial estaremos de acordo: Watergate foi um bom exemplo. A investigação fez-se sem revelação da fonte, (quase) até às últimas consequências -- e sobretudo, sem pisar a lei nem a deontologia.

BSR disse...

Exactamente. Porque no caso watergate, mentes mais dúbias da administração Nixon, não hesitariam em crucificar os jornalistas ao abrigo de um hipotético segredo de justiça.
O jornalista não pode estar acima da lei mas devem-lhe ser dadas condições para desempenhar a sua profissão.
No código deontológico está previsto que o jornalista não publique certas notícias de que toma conhecimento. O problema está nos jornalistas que não cumprem o código. E sobre esses é preciso cair com toda força da lei.